Todo o dia 14 de Maio pra mim é especial. É a data onde comemoro mais um ano de vida. Porém, essa última semana ficará na minha memória: eu morri, e consegui voltar. É algo pra que seja comemorado todos os anos.
Na última semana de Julho minha filha pegou pneumonia. Não sei como, simplesmente foi visitar os avós e pegou. A preocupação com ela sempre é grande, afinal ela é apenas uma criança de 5 anos, e inclusive já foi internada por conta da gripe suína. Por isso, ficou em casa, sem ir à escola, indo regularmente ao médico.
O plano inicial era levar a família pro show da BWF em Poá (a esposa, ou ex, como preferirem e a minha filha), mas isso com certeza atrapalharia. Mesmo assim, eu iria. Afinal, é a minha obrigação, eu gosto do que faço, e prometi ao meu parceiro de mesa Renato Dias que não voltaria a deixá-lo sozinho novamente.
No Sábado acordo com uma leve febre. A pneumoniada minha filha já tinha passado pra mim de forma sorrateira, quieta. Como a febre era praticamente impeceptível, saí de casa. Aí aconteceu o maior erro que eu poderia cometer.
Chegando na allTV, comecei a sentir a febre aumentar levemente. "Foda-se, vou tomar bastante água e já era," pensei. Ao terminar o programa, eu já sabia que estava pior do que quando saí de casa, e que precisava ficar de olho. O programa terminou e eu saí com o Vinícius. Fizemos uma hora por aí para poder buscar o Tim Anderson e levá-lo pro show. Durante essas "voltas", a situação foi ficando mais séria: comecei a me sentir ofegante e com dores no corpo. Já tinha idéia que não acabaria bem essa aventura. Só não sabia o quanto.
Chegamos na casa de Tim Anderson, ele arrumou suas coisas, e fomos para Poá. Não bastasse eu estar doente, a porra da cidade é muuuuuuuuito fria! Nunca vi um local tão frio! Cheguei já com uns 39 de febre, os olhos vermelhos (lembro até de alguém ter me perguntado: e aí, Marcão, fumou um? Cadê o colírio? Hahahaha, parecia mesmo), e uma sensação desagradável. O corpo todo arrepiado.
7 da noite. Ainda faltavam horas pra começar o show. Imagina pra sair de lá. Nesse momento a única coisa que eu pensava era em chegar em casa e deitar. Meu corpo já não aguentava. E pra piorar, o "destino de gordo" ainda estava lá pra me pregar mais peças: as cadeiras plásticas de braços apertados machucaram minha perna, que já estava com os músculos frágeis devido à febre. Saí de lá irreconhecível. Nem eu sabia quem eu era.
Chegando em casa pensei: "Pronto. Uma noite de descanso e amanhã estou novo!" Ledo engano. No dia seguinte começou o pesadelo. A pneumonia começou a agir, e já no domingo eu mal conseguia respirar. Comer então? Nem pensar. A primeira refeição (forçada) que tive depois deste show foi três dias depois, quando após muita insistência da Luciana para que eu comesse algo, aceitei uma sopa.
Essa sopa foi a única coisa que entrou no meu corpo durante 8 dias. Tirando isso, só conseguia beber água, ou com muito custo, um suco. Por várias vezes pensei: "Isso não me parece bem... Nunca passei por isso. Acho que não vou aguentar."
E não aguentei.
Sexta feira. Madrugada. O sono já é difícil de aparecer depois de estar mais de uma semana doente e sem conseguir se alimentar. A respiração vinha com muita dificuldade, e depois de uma dessas batalhas para respirar, "peguei no sono".
Sonhei com as pessoas que gosto, como se eu estivesse na casa delas, ou nos locais onde costumo encontrá-las. Mas era estranho. A sensação que eu tinha era inexplicável. Eu estava feliz. Sentindo uma paz interna que nunca havia sentido antes. Eu aproveitei cada minuto, dei risada, contei piadas, esqueci que estava sofrendo na cama. Tudo isso até eu ver um amigo meu que já não está mais entre nós. Com o susto, "acordei".
Levanto da cama, vou ao banheiro, e aí vem o golpe: Ao voltar pro quarto, me vejo deitado, de olhos abertos, imóvel sobre a cama. A paz e alegria que há pouco eu sentia se transformou em um desespero: "Eu não posso morrer. Não ainda. Minha filha precisa de mim." Eu gritava essas palavras, mas o que eu temia aconteceu: Minha mãe e meu pai, no quarto ao lado, não podiam me ouvir. Eu estava morto.
Chorei. Chorei muito até tudo clarear. Uma voz me dizia que estava em minhas mãos decidir se eu queria ir ou não. Não pensei duas vezes: me atirei sobre meu corpo, e no mesmo momento acordei, agora sim de verdade. De instante demorei a entender o que havia acontecido. Quando finalmente entendi, me emocionei da mesma forma que me emociono agora ao relatar minha experiência de quase morte: tive uma segunda chance.
Saí muito debilitado dessa aventura: tive desidratação, perdi aproximadamente uns 15 quilos, erupções cutâneas por todo o corpo (lábio estourado, acho que ficarei com cicatriz). Mas a cada noite em que eu melhorava, a mesma voz que falou comigo me dizia: "Aguenta firme, que eu vou te tirar dessa." A cada noite a voz se tornava mais clara, e agora, em meio a lágrimas de emoção e agradecimento, posso dizer: Essa voz era do meu amigo Caipira Dom Afonso.
A primeira coisa que quero fazer assim que eu puder sair de casa é levar flores no túmulo dele. Tenho a certeza que ele está olhando por toda nossa família da luta livre. O que eu vivi é prova disso.
Mais uma vez, Cacá: muito obrigado!